
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Líderes e porta-vozes de partidos de esquerda reagiram de maneira discreta ou silenciaram sobre a agressão de militantes do PCO a integrantes do PSDB que participaram da manifestação contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), no último sábado (3), na avenida Paulista.
Quatro dias após o episódio, só alguns representantes de siglas ligadas à organização dos protestos haviam repudiado a ação até esta quarta (7).
A Campanha Nacional Fora Bolsonaro, que reúne os movimentos, legendas e centrais sindicais à frente dos atos, não se posicionou.
Segundo os relatos, um grupo de tucanos foi atingido com empurrões, pauladas e xingamentos por pessoas ligadas ao PCO que queriam expulsá-lo da avenida. As agressões, de acordo com testemunhas, atingiram também ativistas de esquerda que tentaram conter a confusão.
Políticos que foram à Paulista, como o ex-prefeito Fernando Haddad (PT), o ex-presidenciável Guilherme Boulos (PSOL) e o presidente do PSOL, Juliano Medeiros, não se pronunciaram sobre o fato publicamente. Procurados pela reportagem, não responderam.
A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, que também compareceu ao ato na capital paulista, comentou o caso após ser provocada pela reportagem do jornal. “O PT repudia qualquer tipo de violência. Não achamos correto também impedir que pessoas se manifestem”, declarou.
O ex-presidente Lula (PT), que ao longo da semana passada reforçou a convocação para as mobilizações pelo impeachment de Bolsonaro e é visto pelo Planalto como principal beneficiário dos atos da oposição no contexto de 2022, nada disse sobre as agressões.
O mesmo fez o também presidenciável Ciro Gomes (PDT), que mudou o tom sobre as manifestações e incentivou a ida de apoiadores à de sábado, a terceira em 35 dias. Ciro estimulou a participação após o aprofundamento do escândalo da compra de vacinas pelo governo federal.
O diretório municipal do PDT em São Paulo, porém, foi um dos órgãos que condenaram o ataque aos tucanos. Os pedetistas na capital entraram com mais força na mobilização a partir do segundo ato, em maio. O diretório nacional da legenda não emitiu posicionamento a respeito do caso.
Outra instância partidária que repudiou o conflito foi a comissão executiva estadual do PC do B. Sem mencionar o PCO, o órgão disse em nota que “as atitudes e agressões promovidas por um grupo minoritário e inexpressivo” são inadmissíveis e prejudicam “a ampliação do movimento”.
A participação de um grupo de filiados do diretório paulistano do PSDB no sábado passado simbolizou uma entrada mais efetiva de forças à direita.
Ativistas do PCO se revoltaram com a decisão anunciada pelo presidente municipal do PSDB, Fernando Alfredo, e passaram a criticar a adesão tucana. Um deles chegou a ameaçar, antes do ato, “enfrentar pelos meios que fossem necessários” pessoas da direita que se juntassem às marchas.
Antonio Carlos, dirigente nacional do PCO, reiterou à reportagem que o partido é contra a união da esquerda com o centro ou com a direita para pressionar pelo impeachment.
Segundo ele, “o partido não agrediu ninguém”. E justificou: “O que houve foi um desentendimento, que a nosso ver é relativamente normal, diante da revolta, não só de militantes do PCO, mas de companheiros do PT e outros, com a presença oportunista do PSDB”.
A posição majoritária na campanha Fora Bolsonaro é a de concordar com o ingresso de mais setores favoráveis ao impeachment, ainda que haja divergências em pautas como a política econômica liberal do atual governo.
A campanha é composta por frentes como a Povo sem Medo, a Brasil Popular e a Coalizão Negra por Direitos, que reúnem centenas de entidades, entre elas MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), UNE (União Nacional dos Estudantes), CMP (Central de Movimentos Populares) e Uneafro Brasil.
O fórum central também é integrado por partidos como PT, PSOL, PC do B, PCB, PSTU, UP e o PCO. Uma nota formal sobre as agressões era esperada, mas até esta quarta não havia sido confirmada uma reunião geral para uma decisão conjunta sobre o tema.
Na terça (6), a Frente Brasil Popular debateu internamente um texto que condenaria sectarismo e atos de violência e expressaria a importância da unidade e da ampliação.
Centrais sindicais engajadas na mobilização divulgaram nesta quarta comunicado em que criticam “casos de pura intolerância e autoritarismo por parte de militantes do Partido da Causa Operária”.
Individualmente, outros políticos e líderes de esquerda desaprovaram a postura do PCO. Entre eles, o deputado federal Orlando Silva (PC do B-SP), o presidente da UNE, Iago Montalvão, o coordenador da CMP, Raimundo Bonfim, e o porta-voz da Coalizão Negra, Douglas Belchior.
A próxima manifestação da Fora Bolsonaro será no dia 24 de julho. A do dia 3 foi uma data extra, definida em uma reunião emergencial dos organizadores, que buscavam aproveitar o momento de crise acentuada no governo.
Nesta quinta (8), em Brasília, o MBL (Movimento Brasil Livre) e o VPR (Vem Pra Rua) farão uma entrevista coletiva para anunciar a data de uma manifestação contra Bolsonaro puxada por grupos identificados com a direita. Filiados de partidos como PSL e Novo também estão na articulação.
“Será um ato político suprapartidário e que poderá agregar mais forças do amplo campo democrático, mas que rejeita seu uso como palanque para 2022”, disseram em nota. Segundo os responsáveis, a data foi definida com base no avanço da vacinação.
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